A PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO NO BRASIL

A PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO NO BRASIL

16 de janeiro de 2000 Artigos 0

A pesquisa em ciência da Informação no Brasil – Análise dos trabalhos apresentados no IV Enancib, Brasília, 2000

Suzana P. M. Mueller[1]

Antonio L. C. Miranda1

 

Emir J. Suaiden1


Introdução

A Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação –ANCIB é reconhecida como a sociedade científica de âmbito nacional mais importante nessa área. A maior parte de seus associados são professores e pesquisadores ligados aos cursos formais de pós-graduação em Ciência da Informação do país. A Ancib já promoveu três encontros nacionais, chamados de EnAncib: em 1994, em 1995 e em 1997 e agora, em 2000, promove o IV EnAncib. Os encontros têm como finalidade a apresentação de trabalhos de pesquisa em andamento ou concluídos desde o último encontro. Na medida em que a ANCIB congrega a comunidade brasileira de pesquisadores da área de Ciência da Informação, o conjunto de trabalhos apresentados em seus encontros pode ser considerado representativo do estado da arte da pesquisa em Ciência da Informação, no Brasil, naquele momento.

O objetivo deste estudo é relatar o resultado de um levantamento sobre os 250 trabalhos apresentados nas oito sessões temáticas deste IV EnAncib, na tentativa de obter o retrato atual da área. Os dados foram coletados nos  resumos dos trabalhos e nas fichas de inscrição preenchidas pelos autores. Os anais dos EnAncibs anteriores forneceram dados para comparações. Apesar das restrições inerentes às fontes utilizadas, houve informação suficiente para realizar o levantamento a partir de quatro perspectivas: a) temas; b) tipos; c) estágio de andamento; d) características da autoria. Tentou-se levantar dados relacionados aos métodos de pesquisa empregados, mas poucos resumos continham essa informação, tornando a análise inviável.

 

Resultados

 

1           Temas

1.2       Grupos temáticos

As primeiras reuniões da Ancib datam do final da década de 70 e início de 80. Eram reuniões de trabalho dos coordenadores e professores dos cursos de Pós-Graduação então existentes, na sua maioria recém iniciados, nas quais a preocupação predominante era a administração dos cursos e não a apresentação de trabalhos de pesquisa. Ainda assim, os participantes aproveitavam a ocasião para trocar idéias com colegas de outros centros que tinham interesses de pesquisa semelhantes aos seus. Essas conversas deram origem a grupos de pesquisa por interesse temático –GTs- que seriam posteriormente usados como parâmetro para a organização dos EnAncibs em seções temáticas, nas quais são apresentadas pesquisas com interesses comuns.

Segundo os Anais do I EnAncib, que ocorreu em 1994 na cidade de Belo Horizonte, os trabalhos apresentados nesse encontro foram organizados em sete seções temáticas: seis dedicadas a trabalhos de pesquisa e a sétima a trabalhos relacionados à administração dos cursos. A inclusão desse último grupo de trabalhos entre as seções temáticas é provavelmente resquício da finalidade administrativa que caracterizou as primeiras reuniões dos coordenadores dos cursos. Nos encontros subsequentes, em 1995 (Valinhos, SP) e em 1997 (Rio de Janeiro), as discussões de caráter administrativo foram separadas da apresentação de pesquisas, e não sendo mais publicadas nos Anais.

Embora os temas que caracterizam os GTs tenham permanecido basicamente os mesmos nos quatro Encontros, houve algumas mudanças nos grupos temáticos inicialmente estabelecidos, como mostra o Figura 1. A expressão Informação tecnológica, presente no título do GT-3 em 1994 migra para o GT-1 nos encontros seguintes, sendo substituída, no GT-3,  pela expressão Novas tecnologias. Na verdade, houve uma adequação do título e não propriamente de conteúdos. Registra-se também, neste GT-3, o acréscimo de outros assuntos, inclusive Educação à distância.  No encontro de 2000 deu-se a incorporação de dois novos grupos temáticos: GT-7 Planejamento e inteligência competitiva e GT-8 Epistemologia da Ciência da Informação. O primeiro, GT -7, resultou de subdivisão do GT-1,

 

 GTT

1994

I ENANCIB

1995

II ENANCIB

1997

III ENANCIB

2000

IV ENANCIB

1 Administração / Gestão /Avaliação e estudos de usuário Informação tecnológica e administração de serviços Informação tecnológica e administração de serviços Informação tecnológica
2 Representação do conhecimento/Indexação / Teoria da classificação Representação do conhecimento/Indexação / Teoria da classificação Representação do conhecimento/Indexação / Teoria da classificação Representação do conhecimento/Indexação / Teoria da classificação
3 Informação tecnológica Novas tecnologias / Bases de dados / fontes de informação (e a Educação) Novas tecnologias / Bases de dados / fontes de informação e a Educação à distância Novas tecnologias / Bases de dados / fontes de informação e a Educação à distância
4 Informação e sociedade / Ação cultural Informação e sociedade / Ação cultural Informação e sociedade / Ação cultural Informação e sociedade / Ação cultural
5 Produção científica / Literatura cinza Produção científica /Literatura cinzenta Produção científica / Literatura cinzenta Comunicação científica
6 Formação profissional / Mercado de trabalho Formação profissional / Mercado de trabalho Formação profissional / Mercado de trabalho Formação profissional / Mercado de trabalho
7 Políticas de pesquisa e dos Cursos de PG Planejamento de sistemas / Inteligência competitiva
8 Epistemologia da Ciência da Informação

 

Figura 1 – Evolução dos grupos temáticos – I ao IV EnAncib, 1994-2000

Fonte: programação do IV EnAncib e Anais do I, II e III EnAncibs

 

aprovada nas reuniões preparatórias ao Encontro, face ao número significativo de trabalhos enviados sobre o assunto Inteligência Competitiva. A consolidação do GT-7 vai depender da permanência de interesse no tópico, pois a diferença entre os trabalhos classificados no GT-1 e GT-7 não é absolutamente clara em todos os casos. O GT-8, Epistemologia da Ciência da Informação, vem ocupar lacuna sentida por pesquisadores em encontros anteriores, mas sua consolidação como GT também dependerá do volume de trabalhos de pesquisa que serão desenvolvidos até o próximo encontro.

1.2      Número de trabalhos por grupo temático

Considerando-se o volume de trabalhos apresentados em cada grupo temático nos quatro EnAncibs, notam-se alguns pontos interessantes, representados no Figura 2: embora em termos reais todos os grupos tenham crescido, em termos percentuais, enquanto alguns se mantiveram mais ou menos estáveis, outros apresentaram variações significativas. Tomando-se o IV EnAncib como referência, O GT-3 apresenta o maior crescimento em número de trabalhos, e o GT-1, a maior queda. Mas se considerarmos que o GT-1 sofreu uma divisão dando origem ao GT-7, como comentado, houve na verdade um aumento significativo nessa área geral de interesse e, se reunidos os GT-1 e GT -7, o grupo resultante seria o mais produtivo. O GT-5 e GT-6 também apresentaram curva de crescimento acentuada, enquanto as curvas de crescimento do GT-2 e GT-4 são mais suaves, tendendo à estabilização, talvez porque o número de trabalhos nesses temas apresentados nos Encontros anteriores já era alto. Considerando-se apenas o IV Enancib, a distribuição de trabalhos por grupos temáticos mostra a predominância do GT-3 e do GT- 4 (Figura 3).

Os dados sobre os grupos temáticos e o volume de trabalhos apresentados neste IV Enancib retrataram a Ciência da Informação no Brasil como área dinâmica, com interesses crescentes em tecnologia e em questões sociais. Mostraram também a emergência, embora tímida, de interesses em questões teóricas, ligadas à Epistemologia da área, assunto sem grupo específico nos Encontros anteriores. A comparação entre os encontros mostrou ainda tendência para distribuição mais homogênea de trabalhos entre os grupos, com a desaceleração do crescimento dos grupos maiores e crescimento acentuado dos grupos menores.

 

 

Grupo de trabalho e tema 1994 1995 1997 2000

Qt

%

Qt

%

Qt

%

Qt

%

GT 1 Informação tecnológica 3 17% 11 20% 30 22% 23 9%
GT 2 Organização do conhecimento 4 21% 12 20% 32 24% 40 16%
GT 3 Novas tecnologias 3 17% 6 11% 8 6% 46 18%
GT 4 Informação e sociedade 2 6% 11 20% 36 27% 45 18%
GT 5 Produção científica 4 22% 10 18% 19 14% 30 12%
GT 6 Formação profissional 3 17% 6 11% 9 7% 19 8%
GT 7 Inteligência competitiva 34 14%
GT 8 Epistemologia da CI 13 5%

Fonte: Anais EnAncib de 1994,1995 e 1997, fichas de inscrição e resumos, EnAncib 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 2 – Evolução dos grupos temáticos nos quatro EnAncib.

Fonte: Anais EnAncib de 1994,1995 e 1997, fichas de inscrição e resumos, EnAncib 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Resumos e fichas de inscrição, IV Enancib

Figura 3 – Distribuição de trabalhos por GT – IV EnAncib, 2000

 

 

  1. 2.    TIPO DE TRABALHO

 

Por tipo de trabalho entenda-se categorias ligadas à  motivação que o originou, tais como trabalhos derivados de teses, dissertações e monografias escolares, ou resultado da atividade profissional de pesquisadores já formados, isolados ou em grupos. Os anais dos EnAncibs anteriores não dão informações sobre esse aspecto, não tendo sido possível fazer comparações com o conjunto de trabalhos apresentados em 2000.

A distribuição dos trabalhos apresentados no IV EnAncib está exposta na Figura 4.

Número de trabalhos por tipo de pesquisa IV EnAncibTipo de trabalho quantidade  %
Dissertação de mestrado

71

28

Pesquisa individual –

61

24

Pesquisa em grupo

50

20

Tese de doutorado

44

18

Monografia de curso de especialização

10

04

Monografia de curso de graduação e PIBIC

10

04

Trabalhos em disciplinas de cursos de pós graduação

04

02

TOTAL        250      100

Fonte: Resumos e fichas de inscrição, EnAncib 2000

Figura 4 – Número de trabalhos segundo tipo de pesquisa -IV EnAncib

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A soma dos trabalhos ligados a atividades de formação profissional aceitos para apresentação no IV EnAncib, i. e, textos derivados de dissertações, teses, monografias e outros trabalhos realizados em disciplinas de cursos de pós-graduação, especialização  e graduação, corresponde a 56% do universo. Os restantes 44% foram classificados como pesquisa individual e pesquisa em grupo e são provavelmente de autoria de professores e pesquisadores já formados (Figura 4). Esses resultados sugerem que, no Brasil, mais da metade da comunidade de pesquisadores da área de Ciência da Informação está em processo de formação. Sugerem também crescimento da área em futuro próximo (em número de pesquisadores), mas, como para qualquer outra área do conhecimento, não se pode afirmar que a totalidade dos atuais autores-estudantes continuará a pesquisar depois de concluída a formação.

 

3      Estágio de andamento dos trabalhos de pesquisa

 

As fichas de inscrição foram a principal fonte de informação para este item, pois nelas havia um espaço específico para informar a data de conclusão – ocorrida ou prevista – da pesquisa. No entanto, 39% dos autores não informaram data, tendo então sido considerados “em andamento”. Também não foi possível fazer comparações com dados dos EnAncibs anteriores, por falta de dados.

 A Figura 5 mostra o o volume e a percentagem de trabalhos concluídos e em andamento e a Figura 6, mostra a mesma informação por tipo de trabalho. Do total de 250 trabalhos apresentados, 40% estavam concluídos ou por concluir até o final de 2000, e 21,6% com data prevista de conclusão até 2004. Os restantes 38,4%, ou 150 trabalhos, foram considerados “em andamento”, não concluídos e sem data de conclusão declarada. No Figura 6, a distribuição por tipo de trabalho mostra que o grupo de autores que apresentou trabalhos em andamento é formado maioritariamente por pesquisadores formados trabalhando individualmente ou em grupo (58.6% dos trabalhos na categoria em andamento), e em menor proporção por estudantes (41,3% dos trabalhos em andamento). As informações expostas nos Figuras 5 e 6 são indicativas de uma área ativa, onde a atividade de pesquisa é intensa.

 

 Ano de conclusão

Número de trabalhos

Percentagem

Percentagem acumulada

1997 1 0,4 0,4
1998 12 4,8 5,2
1999 22 8,8 14
2000 65 26 40
2001 32 12,8 52,8
2002 16 6,4 59,2
2003 5 2 61,2
2004 1 0,4 61,6
“em andamento”* 96 38,4 100
Total 250 100 100

*Informação deduzida: autores não especificaram data para conclusão.

Fonte: fichas de inscrição, IV Enancib -2000

Figura 5 – Ano de conclusão (ocorrida ou prevista)

 

 

 

 

 

 

Tipo de trabalho 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Sem data TOTAL
Tese de doutorado 01 04 08 07 08 03 05 01 07 44
Diss.  Mestrado 06 10 25 09 04 17 71
Monogr. especialização 01 04 05 10
Monografia graduação/ 01 06 03 10
Monografia disc. de PG 04 04
Pesquisa individual 11 08 07 35 61
Pesquisa em grupo 04 08 07 02 29 50
TOTAL 1 12 22 65 32 16 5 1 96 250

Fonte: resumos e fichas de inscrição

Figura 6 – Tipo de trabalho por ano de conclusão (ocorrida ou prevista)

 

 

  1. 4.     CARACTERÌSTICAS DA AUTORIA

Os dados relacionados à autoria considerados de interesse para este estudo são: a) origem geográfica dos autores, b) origem institucional dos trabalhos e c) número de autores por artigo. A intenção foi identificar a expansão da área, focos de atividade de pesquisa mais intensa e incidência de colaboração entre autores. Os anais dos encontros anteriores não forneceram informações para comparação.

Foram registrados 412 autores para os 250 trabalhos inscritos no IV EnAncib.

 

4.1   Origem geográfica dos autores.

Entre os autores dos trabalhos aceitos para apresentação nas sessões temáticas, foram identificados oito pesquisadores ligados a instituições estrangeiras[2], localizadas nos seguintes países: Argentina (1); México (1); Portugal (1); Estados Unidos (1); Espanha  (4). Os demais autores estão vinculados a instituições nacionais.

Embora o IV EnAncib tenha recebido trabalhos oriundos de todas as regiões geográficas do país, há diferenças na proporção: predomina a Região SE seguida da Região CO, representada principalmente pelo Distrito Federal, local do Encontro. A Região Sul surpreende pela baixa representação, considerando-se sua tradição de pesquisa. A Região Norte está representada apenas pelo Estado do Pará e a Região Nordeste por seis Estados, estando ausentes os Estados de Alagoas e Sergipe. Há também duas pesquisas realizadas em parceria por autores ligados a instituições situadas em Estados diferentes. A proporção de autores cuja origem não foi identificada é relativamente alta, 7,44%. (Figura 7).

 

Fonte: Fichas de inscrição e resumos dos trabalhos, IV EnAncib

Figura 7 – Origem geográfica dos autores nacionais,

 

 

 

4.2      Origem Institucional dos autores.

O Figura 8 mostra a distribuição de autores por instituição. As Universidades que mantém cursos de pós-graduação em Ciência da Informação estão no topo da lista, com maior número de trabalhos. A presença da Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) entre as mais produtivas merece menção, pois essa Universidade não tem curso de pós-graduação na área, e enviou mais trabalhos à IV EnAncib que a Universidade de São Paulo (USP) onde existem cursos de mestrado e doutorado com larga tradição em pesquisa. A presença da Université de Marseille (França) se deve a convênio que manteve com o IBICT nos anos que antecederam o Encontro, ensejando realização de monografias sob orientação conjunta brasileira e francesa; a Université de Grenoble (França) e Loughborough University (Inglaterra) são universidades onde os autores dos trabalhos ora apresentados cursaram seus doutorados e de cujas teses esses trabalhos se originam.

 

 

Instituição Número de Trabalhos Porcentagem do total de trabalhos Instituição Nùmero de Trabalhos Porcentagem do total de trabalhos
1 UnB

53

22,18

18 PUC/MG

2

0,84

2 UFRJ/IBICT

43

17,99

19 EMBRAPA(todo país)

2

0,84

3 UFMG

29

12,13

20 Univ Adventista SP

2

0,42

4 PUCCAMP

14

5,86

21 Fa. D. Domenico – Santos

1

0,42

5 UFPb

13

5,44

22 FINEP Rio

1

0,42

6 UNESP

12

5,02

23 Un. Grnoble (França)

1

0,42

7 IBICT/DF

9

3,77

24 Loughborough Un. (GB)

1

0,42

8 UFBa

9

3,77

25 NIT – São Carlos

1

0,42

9 UFF

6

2,51

26 SeCT/MG

1

0,42

10 UniRio

6

2,51

27 UERJ/USP/UNESP/UCP/PUC

1

0,42

11 USP/ECA

6

2,51

28 UFMA

1

0,42

12 UFSC

5

2,o9

29 UFSC/Fund.Certi

1

0,42

13 Université de Marseille

4

1,67

30 UFSCAR

1

0,42

14 UFPa

4

1,67

31 UNIBAN/UFPr

1

0,42

15 UFRGS

4

1,67

32 UNICAMP

1

0,42

16 ECT- Correios

2

O,84

33 Univ. Católica Petrópolis

1

0,42

17 BGE TOTAL

239

100

Fonte: Fichas de inscrição e resumos de trabalhos, IV EnAncib

Figura  8 – Origem institucional dos trabalhos apresentados no IV EnAncib

 

 

 

 

4.3     Influência geográfica dos Cursos de Pós-Graduação

Considerando o elevado numero de trabalhos oriundos de atividades de formação profissional, ou mais especificamente, cuja origem está ligada a algum curso de pós graduação, foi feita a tentativa de identificar o alcance desses cursos em termos geográficos, ou seja, verificar sua capacidade em atrair estudantes de outros Estados. Apenas as fichas de autores-estudantes se prestaram a essa verificação, que se baseou no número de autores que indicaram vínculo profissional diferente da instituição onde o trabalho foi produzido. Foram levantados apenas 24 trabalhos com aquelas características, e por isso esses dados devem ser vistos com cautela face ao universo.

As duas universidades brasileiras que mais atraíram estudantes com vínculo empregatício em outros Estados, na amostra considerada, foram a Universidade de Brasília, (UnB) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Forma identificados sete trabalhos realizados na UnB por alunos vinculados a instituições localizadas nos Estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais e Pará, todos relativamente próximos à Brasília. A influência do curso mantido pelo convênio UFRJ/IBICT, no entanto, vai além da região geográfica mais próxima, tendo sido registrados autores vinculados a instituições situadas nos Estados da  Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais e Pará. Na lista reproduzida na Figura 9 aparecem três universidades estrangeiras, duas francesas e uma inglesa, cuja presença já foi comentada acima.

 

                       EstadoInstituição

Ce

Ba

DF

Go

Ma

MG

Pa

RS

RJ

RN

TOTAL

UnB

2

3

1

1

7

UFRJ/IBICT

1

1

2

1

5

Univ. de Marseille (France)

1

1

2

4

PUCCAMP

1

1

2

Univ. Grenoble (France)

1

1

IBICT/DF

1

1

Loughborough Unv.(UK)

1

1

UFF

1

1

UFPb

1

1

USP/ECA

1

1

TOTAL

1

5

3

4

0

4

2

1

3

1

24

Fonte: resumos e fichas de inscrição, IV EnAncib – 2000.

Figura 9 – Instituição de origem da pesquisa e Estado do pesquisador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.4    Parcerias na autoria: incidência da autoria única e em colaboração. 

Estudos sobre o fenômeno da colaboração entre autores mostram que existe relação entre a incidência de parcerias e área de conhecimento: nas ciências naturais, exatas e da saúde, artigos assinados por vários autores são mais freqüentes que nas ciências sociais e humanidades, onde predomina o autor único. A colaboração na autoria é em geral interpretada como indicação de estágio mais adiantado de consolidação das áreas científicas (Lawani 1986), embora isso talvez se aplique melhor às áreas das ciências exatas,naturais e da saúde. Alguns autores vem tentando perceber ligações entre o aumento de incidência de autorias múltiplas nas ciências sociais e os fenômenos da globalização e da inserção das tecnologias de comunicação, mas ainda não há evidências que sustentem essa hipótese.

Nos trabalhos apresentados nos três primeiros EnAncib houve predominância do trabalho assinado por um único autor. O exame dos resumos enviados ao iv EnAncib mostra o mesmo padrão (Figura 10). Entre as parcerias, dois autores é a forma mais freqüente de colaboração.

Fonte: Fichas de inscrição e resumos de trabalhos IV EnAncib e Anais dos I, II, e III EnAncib

Figura 10 – Autorias únicas e múltiplas

 

No universo estudado há apenas um caso de autoria envolvendo autores brasileiros e estrangeiros, mas há diversos casos de colaboração entre autores oriundos de instituições diferentes e em dois casos, entre Estados diferentes

Sob a ótica dos grupos temáticos, a incidência de autorias múltiplas se mostra semelhante para todos os grupos: predominam as parcerias de dois autores com a única exceção do GT-3, em que a categoria três autores predomina pela diferença de um caso. A distribuição entre autores únicos e múltiplos, no entanto, apresenta variações segundo o GT: em alguns casos, como por exemplo nos GT-1 e GT-2 o número e trabalhos em parceria chega quase a metade do total desses grupos. A Figura 11 mostra como as parcerias se apresentam por grupo temático.

A distribuição de autoria única e múltipla por tipo de trabalho segue padrão esperado: todos os trabalhos oriundos de teses de doutorado apresentam autor único; o mesmo acontece com a maioria de trabalhos oriundos de dissertações de mestrado, sendo de cerca de 10% os trabalhos assinadas por dois autores; os 24 resumos ligados a trabalhos finais em disciplinas de cursos de pós-graduação, especialização e graduação, seguem o mesmo padrão: 18 (75%) de autoria única e 6 (25%) são assinados por mais de um autor.

 

 

GruposTemáticos

Número de autores

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10 11 12 13
Grupo  1

13

7

1

0

1

1

Grupo  2

27

8

3

1

1

Grupo  3

36

3

4

1

1

1

Grupo  4

35

6

3

1

1

Grupo  5

24

2

1

1

1

Grupo  6

14

1

2

1

1

Grupo  7

28

2

1

1

1

1

Grupo  8

10

2

1

Total 187 31 13 5 5 1 2 1 1 1 2 1

Fonte: Fichas de inscrição e resumos – IV EnAncib

Figura 11 – Parcerias na autoria, por grupo temático

 

 

A presença de colaboração entre alunos e professores e entre colegas estudantes nos trabalhos oriundos de dissertações e disciplinas escolares sugere que tais associações podem ser eventuais, isto é, os autores não são propriamente parceiros de pesquisa de longo termo. Entre os trabalhos de pesquisa não ligados a disciplinas ou cursos, há 61 trabalhos de autor individual e 50 assinados por mais de um autor, esses sim indicadores de parceiros de pesquisa (Figura 12).

 

Tipo de trabalho

Número de Autores TeseDoutorado DissertaçãoMestrado Monog.Especiali-zação PIBICGraduação Disciplinascursos P-G Pesquisaindividual Pesquisa.em grupo Total

1

44

64

9

6

3

61

0

187

2

6

1

3

1

21

32

3

1

1

10

12

4

5

5

5

5

5

6

2

2

7

1

1

8

2

2

9

1

1

10

1

1

11

1

1

12

0

0

13

1

1

TOTAL

44

71

10

10

4

61

50

250

Fonte: fichas de inscrição e resumo de trabalhos, IV EnAncib.

Figura 12 – Número de autores por tipo de trabalho

 

Considerações finais

Os dados levantados descrevem a pesquisa em Ciência da Informação em vários aspectos, permitindo fazer as seguintes afirmações, se não para toda a área, pelo menos para o conjunto de trabalhos apresentados no IV EnAncib:

a)    é uma área em estágio de formação de seus pesquisadores – 56% dos trabalhos estão relacionados com a formação profissional de seus autores;

b)    houve o acréscimo de dois GT, evidenciando expansão de interesses pesquisados (quando comparados com os Encontros anteriores) destacando-se a preocupação com as novas tecnologias e com aspectos sociais da Informação.

c)    Os autores da área trabalham principalmente de forma individual; a distribuição do número de trabalhos de autoria única e em colaboração varia entre os grupos temáticos sem aparente ligação com o tema (os GT-1 e GT-7 são semelhantes no tema, mas apresentam diferenças na distribuição de autorias) e entre tipo de trabalho, nesse caso variando conforme o tipo;

d)    As instituições mais ativas em pesquisa são as universidades onde há cursos de pós-graduação, e entre essas, duas se sobressaem: UnB e UFRJ/IBICT; no entanto, isso poderia ser atribuído ao envolvimento dessas duas instituições na organização do IV EnAncib; há forte concentração de trabalhos oriundos das regiões Sudoeste e Centro Oeste, mas percebe-se também sinais de crescimento em regiões geográficas com menor tradição de pesquisa na área.

 

Se o conjunto de trabalhos apresentados no IV EnAncib em novembro de 2000 pode mesmo ser considerado representativo da área naquele momento, o retrato resultante é animador, pois mostra uma evolução em relação aos Encontros anteriores. Mas além dos dados quantitativos, apresentados no corpo desse trabalho, a leitura dos resumos também sugeriu um processo de amadurecimento, posteriormente corroborado nas exposições e principalmente nas discussões ocorridas nas sessões temáticas e nos painéis, embora não tenha sido possível neste trabalho trazer dados concretos para apoiar essa afirmação. Os pesquisadores emergem do encontro como um grupo dinâmico, nem sempre unânime nas questões debatidas ou homogêneo no domínio das técnicas de pesquisa, mas alerta para o contexto nacional em que se insere os problemas tratados.

Correndo o risco de fazer afirmações sem a devida comprovação, a leitura dos resumos e a observação das apresentações sugeriu haver ainda certa deficiência no uso de métodos e técnicas de pesquisa, mas notou-se a emergência (ou intenção de uso) de metodologias qualitativas.

Apesar das limitações inerentes às fontes utilizadas, isto é, resumos dos trabalhos e fichas de inscrição daos pesquisadores, acreditamos que resultado deste levantamento revela o estado da arte da pesquisa em Ciência da Informação no país

 

Referências Bibliográficas

 

Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 1. Belo Horizonte, 8 a 10 de abril de 1994. Anais … , 1994.

Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2. Valinhos, 22 a 24 de novembro de 1995. Anais … 1995

Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 3. Rio de Janeiro, 10 a 12 de setembro de 1997. Anais … 1997

LAWANI, S. M. Correlates of quality in research. Scientometrics, v. 9, p.;13-25, 1986.

 



[1] Professor, Departamento de Ciência da Informação, Universidade de Brasília

[2] Compareceram 9 autores estrangeiros ao IV Enancib, mas um deles, do Mexico, apresentou palestra em um dos painéis, e não foi incluído no total dos

trabalhos apresentados nas sessões temáticas.

Arquivo original: A PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO NO BRASIL

 

 

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